Origens: a azulejaria na visão de um belo-horizontino
Outro dia me perguntaram quando se iniciou meu interesse pelos azulejos. Curiosamente não consegui responder de imediato. Falei sobre minha primeira abordagem, ainda em 2005, e sobre o início da 1958 Azulejaria. Disse sobre minha paixão pela azulejaria brasileira, sublinhando a palavra brasileira, e que não tenho muito apego ao estilo português apesar do respeito e admiração. Este pensamento me seguiu durante dias: de onde tirei a vocação para a azulejaria? Ainda mais a brasileira? Acredito que tem muito a ver com o lugar onde nasci e fui criado, a minha Belo Horizonte.
No período colonial o Estado de Minas Gerais recebeu um patrimônio arquitetônico e artístico únicos no mundo, diferente de todo o colonial e o barroco existente. Uma explicação para isso está no fato de Minas Gerais – mais especificamente a região de Ouro Preto e trechos da Estrada Real – estar muito longe do mar e ser uma região de extração de riquezas minerais, e à exceção do ouro, não importava muito para a Igreja e para o Império. Desta forma, os artistas e construtores que aqui residiam encontraram uma liberdade que nenhuma cidade do período conseguiu sequer imaginar, oferecida por um certo descaso, permitindo que obras únicas fossem feitas aqui.
Porém, uma arte Minas Gerais não recebeu e nem sequer a concebeu: azulejos. Enquanto Rio de Janeiro, São Luís, Parati, Recife, Salvador e tantas outras cidades litorâneas eram revestidas pelo azul e branco vitrificado, Minas Gerais não. Quem conhece o caminho do Rio de Janeiro para Ouro Preto pode imaginar que há séculos atrás era impossível transportar azulejos em lombo de burro pelas serras mineiras . Não restava um! Apesar disso, a influência dos centros litorâneos ditavam a importância do revestimento e em algumas cidades como, por exemplo, Sabará é possível ver afrescos que simulam azulejos com requintes de detalhes até mesmo do rejunte.
O período colonial acabou, houve a independência, a proclamação da República e ainda nada de azulejos em Minas Gerais. Vila Rica (Ouro Preto) deixou de ser a capital do estado e em 1897 nasce Belo Horizonte. Cidade planejada para ser a Nova Capital pelas mãos de Aarão Reis seguindo as mais revolucionárias idéias da época, caminho seguido por Brasília décadas depois. Vieram aqueles do interior, os árabes, os italianos – incluindo minha família – e mais uma diversidade de outras origens. Todos formaram a Belo Horizonte atual que cercada de minério e pedras preciosas ainda exibe sua vocação mineradora, o que é uma pena.
Belo Horizonte desde seus primórdios faz uma interseção absolutamente única entre o conservadorismo e a modernidade. Por um lado ela mostra o caminho futuro e por outro nos lembra como éramos. Só quem nasce aqui entende bem este antagonismo. De qualquer forma, recebemos nos anos 40 um prefeito de origem interiorana, especificamente de Diamantina. Isso mesmo, JK. Quando em seu mandato decidiu construir um novo bairro… um lugar afastado do centro da cidade e que fosse um bairro nobre, mas ao mesmo tempo um local de lazer para toda a população: a Pampulha. E para este trabalho convidou um jovem e expoente arquiteto que com a liberdade de quem está isolado do resto do país revolucionou, não só a arquitetura, mas a própria noção de Brasil. Em Belo Horizonte houve o encontro entre duas grandes personalidades, Juscelino Kubitscheck e Oscar Niemeyer. Segundo o próprio arquiteto “Brasília começou aqui”! Casa do Baile, Cassino (atual Museu de Arte da Pampulha), Iate Tênis Clube, Igreja de São Francisco… as curvas e o concreto armado encontraram seu berço. A integração entre arte e arquitetura começou a ser explorada de forma descomunal. Alfredo Ceschiatti, Portinari, Burle Marx, Zamoyski, Paulo Werneck, Volpi, Paulo Rossi Osir, todos eles estiveram presentes na construção de um novo bairro… que virou outra cidade.
Volto ao início do texto para tentar explicar o porquê da minha intimidade com a azulejaria brasileira. Não vi durante meu crescimento os azulejos portugueses e o barroco que está a pouco mais de quarenta minutos de minha casa não é típico de lugar algum, a não ser daqui. Minha família é centenária em Belo Horizonte, e entenda, isso é muito raro para uma cidade de 112 anos. O fato de meu pai, e ainda, seu próprio pai, terem nascidos nesta cidade me impõe a necessidade de ser mais que um mineiro, um belo-horizontino. Vi desde muito novo as curvas e o concreto armado… sempre foi natural saber que os azulejos que revestem a Casa do Baile são os mesmos do Museu de Arte da Pampulha e do Iate Tênis Clube. Os painéis de Paulo Werneck e as esculturas de Ceschiatti e Zamoyski sempre estiveram presentes. Conheço e entendo as primeiras esquadrias de metal, pois sempre as vi.
Há ainda outro fator que para mim é preponderante. Meu avô materno participou da construção de Brasília. Figura única em minha vida ele povoou meu imaginário com história e estórias do planalto. Sobre tucanos e seriemas assim como sobre candangos e figurões. Este imaginário me norteou e fez com que tivesse Brasília como terra íntima. Além disso, apresentou-me Guimarães Rosa, que com tanta genialidade me fez perceber que o caminho do planalto começa em Belo Horizonte. Não por JK ou Niemeyer, mas por mostrar que o grande sertão começa aqui. Estou a quinze minutos de um pequizeiro ou de um buriti.
Não posso deixar de citar a influência de grandes artistas que em Belo Horizonte encontraram terreno fértil para semear suas obras: a conterrânea Lygia Clark e suas superfícies moduladas; Paulo Werneck e seus painéis de pastilhas; Franz Weissman que aqui lecionou na Escola de Guignard; Amilcar de Castro a quem devoto tanto respeito; e Athos Bulcão.
Graças a Belo Horizonte houve o encontro entre Athos e Niemeyer. Segundo a história, Niemeyer conhece Athos no ateliê de Burle Marx, amigos em comum, e vendo uma de suas obras o convida a executá-la em painel de azulejos para o Teatro Municipal de Belo Horizonte, obra nunca executada. No entanto, e a partir daí, Athos encontrou-se em Brasília. Ele também está presente em Belo Horizonte seja como assistente de Portinari no tão importante painel da Igreja da Pampulha como em importantes obras autorais.
Coloco-me de forma humilde a toda esta história, iniciada com os bandeirantes e percorrida por tantos nomes importantes. É bom saber que sou filho desta terra. É bom compreender os motivos que me fizeram trabalhar com uma grande paixão.
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- Published:
- 24.04.09 / 6:49 pm
- Category:
- Alexandre Mancini, Arquitetura, Arte, Azulejaria Brasileira, Belo Horizonte
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