Composição modular aleatória: o assentamento livre

Divido em três formas a criação dos meus azulejos: Composição modular aleatória, composição modular ordenada e padrões. Grande parte dos meus painéis utiliza a composição modular aleatória, ou seja, a livre combinação entre os módulos. Esta forma de composição é o oposto da azulejaria de padrão onde cada azulejo se comporta de forma simétrica a seus pares completando-os e revelando formas maiores. Na modular aleatória há uma espécie de insubordinação das formas.

Para conceber estes módulos utilizo princípios diversos como proporção, estudo das formas geométricas e sua continuidade, estudo do vazio, ritmo, peso entre outros. O processo mais importante é o da criação do módulo já que ele, por si só, é a obra. Não concebo a idéia de que um azulejo só fará sentido se junto aos seus pares, ao contrário, penso no módulo como uma obra de arte independente, que poderia utilizar suportes diversos como telas, esculturas, relevos entre outros. Entretanto, exploro ao máximo sua capacidade de repetição, movimento e ritmo na composição.

A simetria é parte inerente ao azulejo: uma peça bidimensional por natureza. É um quadrado branco. Nossos olhares reconhecem esta condição e poder interferir neste processo é fascinante. Quando crio os módulos geralmente utilizo o branco do azulejo como cor, para mostrar que ele esta ali, o azulejo. Não importa se estes módulos são quadrados, triângulos, círculos ou outra forma qualquer, pois sempre os crio dentro de eixos e em ângulos correspondentes, ou seja, buscando a simetria. Nesse sentido, a composição aleatória dos módulos não corrompe em nada o aspecto simétrico, mas se mostra insubordinada a ele.

Ao olhar um painel com assentamento aleatório podemos reconhecer racionalmente que algo está fora de ordem, mas intuitivamente sabemos que a simetria está ali, perfeita. Esta característica é marcante no processo de participação do espectador através da sua observação. A combinação aleatória dos módulos é reconstruída pelo olhar único de cada um. Cada qual irá montá-lo e remontá-lo com seus próprios olhos descobrindo a cada momento formas ali escondidas com seus caminhos e ritmos subjetivos.

Portanto, a partir da criação do módulo e os vários estudos de seu comportamento em composição faço a definição de como será seu assentamento. Geralmente entrego ao pedreiro azulejista responsável pelo acabamento a liberdade de composição do painel, respeitadas poucas regras anteriormente estabelecidas como, por exemplo, nunca fechar um círculo, não haver repetição em mais de três módulos e etc. Cada pedreiro azulejista reage de forma diferente quando descobre que ele finalizará uma obra de arte, que a partir deste momento, ela será também um pouco dele. Alguns têm medo e buscam a repetição ordenada como se houvesse uma forma correta para o assentamento e, para esses, tento explicar que não existirá erro na composição a não ser que ele tente fazer certo. É errado querer fazer certo! E quando eles percebem este ponto de vista estão prontos para o trabalho. Outros azulejistas gostam da idéia desde seu início e descobrem que o trabalho se torna uma brincadeira quase infantil. Lembro-me do azulejista que assentou os painéis da Praça da Pampulha que me revelou sua satisfação em fazer o serviço e que iria levar esposa e filhas para ver “sua” obra.

Grande parte da experiência em se trabalhar com a composição modular aleatória está relacionada ao fato de que cada pessoa daria um resultado diferente para a mesma obra. A minha parte se concentra na criação dos módulos e na afirmação do resultado desejado. A partir daí a obra não será somente minha… ela pertencerá um pouco ao azulejista e a qualquer pessoa que queira reconstruí-la, mesmo que mentalmente.

 

Veja abaixo alguns exemplos de painéis que realizei utilizando a composição modular aleatória:


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Lâmina, 2008: Praça Pampulha - BH -MG / Arquitetura:Arquitetos Associados

Lâmina, 2008: Praça Pampulha - BH -MG / Arquitetura:Arquitetos Associados

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