A azulejaria como arte urbana

Desde o início de meu trabalho com azulejos que faço um elo entre duas áreas: a azulejaria e a arte urbana. Boa parte desta relação nasceu da observação que fazia no caminho para meu ateliê – e antiga residência – onde passava por diversos muros grafitados e quando, chegando ao destino, deparava-me com o painel de Portinari na Igreja de São Francisco, na Pampulha.

Observava e refletia sobre a necessidade de expressão pública, de arte feita para todos e inserida no contexto urbano. Apesar das diferenças entre os muros grafitados e a arte gravada nos azulejos de Portinari senti que algo os unia. Por questões do tempo e suas gerações a integração entre a arte com a arquitetura revelou-se de forma curiosa: no movimento de arquitetura moderna os artistas eram convidados a colaborar com o espaço arquitetônico e, hoje, os artistas urbanos interagem sem permissão. Em ambos a disponibilidade de estarem com suas obras ali, prontas para o olhar mais atento, ou simplesmente ali fazendo parte de nosso cotidiano.

Apesar destas supostas semelhanças um antagonismo entre elas gerou uma curiosidade tremenda. Os azulejos são queimados a altas temperaturas reservando-lhes o direito a perenidade enquanto o grafite (ou stencil ou sticker) são absolutamente frágeis bastando uma simples demão de tinta para ocultá-los. Desta forma, será que os grafiteiros gostariam de conceber suas obras resistentes ao tempo?

Com esta pergunta e com a certeza de ser, mesmo que de uma escola mais antiga, um artista urbano comecei a me integrar com a nova geração de artistas. Realizei uma palestra junto ao Projeto Guernica, conheci grandes nomes da arte urbana em Belo Horizonte e pude dialogar muito sobre estas questões.

Em resumo, constatei que a perenidade é algo que, pelo menos para boa parte, se torna muito atraente. Ao exemplificar sobre os grandes nomes da azulejaria brasileira e suas respectivas obras, percebi que os novos artistas urbanos se sentiram herdeiros de uma tradição e que com engajamento é possível continuar esta história. Ademais, as lições dadas pelos nossos mestres são de extrema utilidade na composição dos novos suportes de arte. Composição modular, azulejaria de tapete, repetição, rotação, arte figurativa, muralismo, padronagem… tudo isso está por ser descoberto por esta geração. E o mais fascinante é que não sabemos o que eles farão com estas informações.

Tento cada vez mais estar próximo a estes artistas para poder passar parte desta história tão rica que é a azulejaria brasileira e, principalmente, aprender com todos eles. O frescor e liberdade de suas criações são motivos de sobra para criar, novamente, uma arte com a essência brasileira. Quem sabe nossos grafiteiros não possam fazer sua arte em azulejos ou ainda que os azulejos não possam se tornar estênceis ou lambe-lambes? Faço aqui a proposta e pergunto:quem se habilita?

 

www.alexandremancini.com


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